No 58 é proibido abrir janelas. No Verão é dos poucos autocarros que o ar-condicionado funciona. Mas nessa altura já se abrem as janelas. No 58 do Chiado até ao Rato até se aguenta. Mas, depois, lá entram eles - os velhos. Não andam, nem deixam passar. Têm milhares de sacos de plástico. São gordos e encasacados. São feios e carrancudos. Olham para nós como se fossemos serial-killers apenas porque estamos sentados ou encostados num cantinho, a tentar pensar que se está num prado verde e que daqui a pouco chega-se ao destino. No 58 os velhos gritam muito. Gritam porque se abriu a janela. Gritam porque se fechou a janela. Gritam porque o condutor já fechou a porta porque não teve para estar à espera que a velha gorda, cheia de sacos de plástico se despachasse, porque só se deu ao trabalho de se levantar quando o autocarro chegou à paragem. Gritam porque "não toca". Gritam porque "vai cheio e não parou". Gritam porque "o de trás vai vazio". Gritam porque só vai até ao Rato. Gritam porque só vai até Sete-Rios. Gritam porque há espaço lá atrás. Gritam porque ninguém anda.
O 58 é um autocarro muito temperamental. Às vezes consegue ser o melhor autocarro do mundo, passa de dez em dez minutos e num instante está-se no Chiado. E há sempre lugar. É também o autocarro que tem um trajecto simpático, passa pelos sítios certos da luz lisboeta. O 58 há a todas as horas e à noitinha continua, transforma-se em 202. O 58 é uma praga de autocarro, pois atravessa a cidade e eu vá para um lado, ou vá para o outro, preciso dele. O 58 é imprevisível, pois quando se atrasa, atrasa-se de uma forma espectacular, uns bons 20 minutos, o que é coisa para concentrar multidões em fúria à sua espera. O 58 avaria. o 58 tem furos. O 58 tem um condutor cobarde e idiota, que encosta na esquadra do Rato, para gritar com um passageiro que cheirava mal, porque estava a incomodar as pessoas, mas já vinha sentado desde Campolide, com bilhete pago e tudo, mas foi só no Rato que o senhor motorista se lembrou de "pôr ordem naquilo". O 58 é uma dependência. O 58 é uma doença.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
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2 comentários:
Oh! Esse autocarro é do pior, mas 35 vi muitas histórias parecidas com essas! Ás vezes andar de autocarro é impossível!
Gosto muito de ler este blog!
Margarida Espiguinha :)
Obrigada, Margarida! Curiosamente o 35 faz parte da minha história de vida com a Carris, fez parte da minha adolescência inteira. Muitas histórias passei no 35. :)
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