A Ariel há uns dias falava das declarações de Sócrates para que @s defensor@s do SIM respeitassem @s do NÃO.
A Ariel observava, e muito bem, que o puxão de orelhas de Sócrates, estava mal dirigido, pois era semelhante aos raspanetes e castigos que muitos pais colocam aos seus filhos mais velhos por asneiras que não cometeram, quando foi o irmãozinho mais novo que fez travessura, "mas como és o mais velho, tens que pagar". Porque é do lado do NÃO que chovem insultos a chamarem-nos "assassinos", "fanáticos abortistas", e outros termos muito pouco elogiosos. Até porque para além disso, tratam as pessoas como se fossem atrasadas mentais, não explicando nada, preferindo recorrer à manipulação e ao choradinho fácil, como o recurso ao uso de imagens do "bebé" nas primeiras semanas de gestação, de passarem pela plateia radiografias, nos debates públicos, de rezarem o terço na praça do Comércio porque "Deus nos livre dos abortistas", de criarem concursos sobre "a minha primeira morada", de promoverem vídeos sensacionalistas, e quando nós já achamos que não pode ser pior, nem se descer mais baixo, distribuem por RSF imagens de uma Nossa Senhora chorosa, como descobriu o Daniel Oliveira, no Arrastão. E aqui se vê a seriedade da campanha do NÃO.
Em 1998 os movimentos pela escolha foram acusados de radicalismos que prejudicaram a campanha, por causa de slogans como "na minha barriga mando eu". Não vou discutir isso, neste momento, até porque o debate andou animado por vários cantinhos da blogoesfera sobre isso mesmo (por exemplo, Cris, Ariel, Boss,Agrafo, MVA), e porque também a campanha do NÃO recaiu em radicalismos como o “Por favor não matem o Zézinho”.
Parece-me, mas ainda estamos na pré-campanha, que desta vez, em 2007, é por parte do NÃO que se assiste a um radicalismo exacerbado, a lembrar os cruzados, que tudo fazem para levar a sua adiante. E parecem fanáticos a pregarem a cruz, numa cegueira desmedida, fazendo orelhas moucas a tudo o que se pergunta, não explicam, não esclarecem: pregam. (basta ler o blog do não, e ver como nunca, mas nunca, respondem a uma pergunta directa). Mas os tempos das cruzadas já terminaram. E felizmente, tivémos um 25 de Abril, que para mim ainda e sempre, faz todo o sentido, pois permitiu a sociedade portuguesa sair de uma espécie de idades das trevas onde não de podia questionar nada, onde não se podia ser diferente. Ainda que se possa dizer que a liberdade de Abril poderá ainda não estar completa enquanto vivermos numa sociedade onde há liberdades e escolhas que ainda não estão contempladas nem nas leis, nem nas práticas sociais (como o direito ao aborto legal e seguro, como os casamentos entre homossexuais, adopção por solteiros/as heterossexuais e homossexuais, e muitos outros aspectos), o 25 de Abril acabou com o pensamento único e permitiu que a diversidade de opiniões e de ideias andassem na rua, e é por isso, que hoje temos uma pluralidade de movimentos, associações e partidos. E mesmo que nem todos/as pertençamos a esse tipo de estruturas todos/as temos capacidade de pensar e de questionar, enquanto indivíduos, e isso não é mais oprimido, nem censurado como nos anos cinzentos do salazarismo. Por isso é que me incomoda tanto os pregões cegos e surdos do NÃO. Porque não respeitam que haja outro tipo de valores. Porque não respeitam as mulheres que decidem que não querem ter filhos. Porque depreendem que engravidar e não prosseguir com isso é um acto de irresponsabilidade. Porque acham que despenalizar o aborto é “a legalização da barbárie”, sempre na tónica que uma mulher não é capaz de tomar uma decisão responsável sobre a sua vida, o seu corpo e a sua saúde sexual e reprodutiva. Este desrespeito do NÃO é arrogante e a arrogância é a pior inimiga de se conseguir aquilo que se pretende. E quem trata o eleitorado com total desdém e condescendência é não ter noção, é não respeitar quem os ouve, e isso, espero eu, é o caminho da vossa perdição.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
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1 comentário:
Subscrevo este post, minha querida.
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