
Voltei à praga da “altura das frequências”, mas, agora, do outro lado. Um lado que nunca achei que desse trabalho, que também envolvesse dramas e stress. Estar numa faculdade privada significa que há muitos mais alunos, laboral e pós-laboral. Muitos mais velhos que eu, que olham para mim como se fosse uma extraterrestre, mas que nos momentos de aflição, i.e., nas vésperas da apresentações de trabalhos, de entregas das recensões, das frequências e dos exames passo a ser uma espécie de melhor amiga, ainda que temporária. Nestes dias é vê-los nas faculdades todos os dias, cheios de livros e fotocopias, com o ar mais atarefado do mundo, cheios de vontade em falar comigo sobre Bourdieu, desigualdades sociais e globalização. Nestes dias já gostam do meu ar “mais novinho”, “porque a professora compreende”, “porque dá assim mais desconto que o Professor T” (por Professor T entenda-se o meu chefe, o responsável pelas cadeiras que dou).
O problema é que eu ainda sou aluna, ainda que já me tenha livrado das frequências, exames e segundas épocas. O problema é que ainda me lembro das manhas de se ser aluno. E reconheço a milhas de distância os esquemas, as tretas, as desculpas esfarrapadas por não se entregar trabalhos a tempo e horas, e os ares estranhos de quando se faz uma frequência, os olhares de esguelha para o professor, na esperança que ele não se aperceba que não se sabe nada da matéria e que jeito dava que ele saísse da sala para se dar uma espreitadela nos apontamentos que se tem ali na mala, nas calças, nos bolsos, ou então, porque não só para falar um bocadinho com o colega do lado.
Mas o que não compreendo é a falta de imaginação criativa para fazer estas coisas. Ou seja, discretamente, e diga-se com bastante mais inteligência. Não percebo porque entregam trabalhos onde os nomes dos autores nem sequer estão em maiúsculas, onde o uso de acentos é um conceito inexistente. Caramba, qualquer processador de texto tem um corrector ortográfico. Ou de apresentarem recensões críticas de textos em inglês, que consistem em pôr o texto no tradutor automático do Google, de inglês para português, e entregarem tal e qual, sem sequer reverem o português. Ou falar de conceitos teóricos directamente sacados, sem tirar nem pôr, da Wikipedia. Sobretudo não percebo, como hoje, uma aluna que veio ter comigo muito aflita porque o Professor T não lhe tinha lançado a nota da frequência, para saber se tinha que ir a exame ou não, e quando lhe digo que teve 1, (sim, 1) tenha ficado deveras surpreendida, pois estava na esperança “que ainda desse para o 8”.
Pior, ainda estou para perceber se nasci para dar aulas e se gosto desta coisa do “ser professora”, e estar deste lado, pois é um lado ingrato, e nem sempre, compensador.
1 comentário:
welcome to the dark side
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