Houve um tempo onde o amor era uma coisa muito simples. Escrevia-se a pergunta num papel do caderno, dobrava-se em quatro e passava-se a missiva, por entre as carteiras. A resposta era assinalada com uma cruz, volta-se a dobrar a folha e devolvia-se. Sem confusões, sem esperas existenciais, sem dramas. Na minha turma do 9º ano havia um rapaz muito feio, muito chungoso. Era o Carlos. Ou melhor, era o Van Damme. Era muito pequeno, atarracado, com uma cabeça desproporcional do resto do corpo, mas andava sempre de manga cava a exibir os seus braços musculados brutais.
Um dia o Van Damme mandou-me um bilhete deste género. Respondi que não. Logo a seguir, na mesma aula, passou o bilhete à Filipa que também disse que não. E depois à Marta. E à Catarina. E à Margarida. E à Carla. Tudo negas. Mas o Van Damme não desistia e nunca pareceu transtornado com tanta tampa. Saia das aulas como se nada fosse, a fumar o seu cigarrinho, sempre na sua, com o seu ar de Van Damme.
Hoje ao descer, pela terceira vez, a calçada do Combro, dou de caras com o Congresso Primaveril de Trolhologia, congresso o qual já tinha tido a infelicidade de presenciar alguns rasgos da produção da poesia trolha-trovadoresca, e entre as pérolas criativas saiu esta: "- Tem uma perna bem jeitosa. Uma, não, duas. E andam e tudo".
Num misto de raiva profunda e de surpresa pela criatividade inigualável da imaginação trolha-trovadoresca, já quase quase a mandá-los para um sítio feio e pronta para mostrar que as pernas para além de andarem, sabem dar pontapés, se assim for preciso, oiço um decidido "parou, parou, parou!". Era o Van Damme.
O Van Damme calou os congressistas, topou logo que eu não estava bem a ver quem ele era (embora a reacção fosse mais de "isto não me está a acontecer"), mas tratou logo de me recordar, perguntou se me podia pagar uma bica. Não interessava muito se eu bebia café ou não, pagou a bica, fez a conversa toda, explicou que era pai de família, com dois chavalinhos, bulia no duro, e que isso de estar na Calçada "é só a malta na brincadeira, não tenhas problemas". Simples e prático. Como há não sei quantos anos atrás.
Sei que ter feito uma cruz no "NÃO" da folhita do Van Damme não foi um erro crasso, nem perdi o grande amor da minha vida. Mas, pelo menos, tem e mantém uma qualidade que poucos homens (e mulheres) têm hoje em dia. Não complica. E por isso, não deixei de ficar com um estúpida saudade nostálgica e bacoca dos tempos do secundário, onde tudo era mais fácil, apesar de na altura se achar que tudo era um drama sem remédio, quando não era nada. Era simples, tudo tão simples.
4 comentários:
O Van Damme era um otário porque nunca percebeu que para agradar uma mulher, não importa a idade, ela tem que achar que é especial. Ele ter mandado o mesmo bilhete a todas mostra uma insebilidade demasiado grunha. Homens simples sim, grunhos não!
post ternurento. as coisas q te acontecem, amiga! agora estás safa de trovas trolhas por uns tempos, aposto. :))
... mas não deixa de haver qualquer coisa poética nesse Van Damme. Ele é um homem que segura as pontas da vida por uma corda, pendurado num andaime, mas não é por isso que deixa tudo para te vir dizer que não tenhas medo.
Em todo o caso, o papelinho a perguntar "sim" ou "não" só podia vir muito depois de longos e estimulantes textos.
Lindo, lindo, mas repara como na altura eles já eram ardilosos o suficiente para acrescentar a hipótese talvez ;)
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